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Niura Bellavinha: Fluidos e Fixos

de 17 de novembro de 2009 a 9 de janeiro de 2010
terça a sexta-feira, das 10h às 19h
sábados, das 11h às 17h
entrada gratuita

Em 1990, Niura Bellavinha preparava sua primeira individual, Humano Imerso, na Galeria Subdistrito, em São Paulo. Em uma tela esticada diretamente na parede do ateliê, aplicava jatos de ar comprimido e água sobre a cor em pigmento e tinta previamente colocados sobre a superfície. A força do jato infiltrava a cor para outro lado da tela. O processo, que precisou de dias para ser concluído, para surpresa da artista deixou marcas também na parede. Interessada naquele vestígio inesperado, conseguiu recortar a pintura para levá-la para a exposição, mas durante o transporte a parede se desfez.

Esse foi o marco inicial de uma pintura que tem sua história construída em bases fluidas e líquidas, apoiadas no tempo e nos campos de cor. Agora essa produção revela outros caminhos na exposição Fluidos e Fixos. As novas pinturas reforçam a pesquisa a que se dedica a artista, investigando possibilidades pictóricas a partir do que a artista chama de pinturas/filmes, pinturas/fotos, pinturas/instalações, pinturas/interferências urbanas, pinturas/performances, e até a partir dos fluidos da natureza.

Em 1993, a artista fez uma pintura com a chuva, em Belo Horizonte. Do segundo andar do seu ateliê, viu da janela o temporal que começava a armar. Com ajuda do assistente, fixou uma tela na vertical e usando uma vassoura como pincel, colocou a tinta na parte superior, deixando alguns espaços em branco. Quando a chuva começou, a pintura começou a se constituir, com algumas interferências da artista. A chuva passou, a tela secou parcialmente, e retornando ao estúdio Niura se viu diante de uma base pronta sobre a qual trabalhou com tinta óleo. Hoje, cachoeiras, quedas d’água, chuvas, tempestades, ventos, nuvens, mares e espelhos d’água, são o fio condutor de trabalhos que buscam construir uma estabilidade quase improvável a partir do incerto da existência.

Sua produção é marcada pela fluidez, pelo estado líquido, mas nessa exposição há uma mudança: esses elementos deixam de ser meios do trabalho para serem como que o tema dele.
Meu trabalho tem uma continuidade construída a partir de mudanças sutis, que vão se revelando aos poucos mesmo para mim. Vapor, fogo, água, poeira, infiltrações e pigmentos são apenas alguns dos elementos que constituem minha pintura. Nesse contexto, parece improvável uma estabilidade, mas ela vai acontecendo na medida em que a matéria vai se adensando. Isso acaba se configurando como um princípio básico e fundamental da minha pintura, porque a fatura vai se impondo na busca dessa estabilidade improvável.

Então não há uma relação de tensão entre fluidez e estabilidade?
Não, pelo contrário. A estabilidade vai se construindo pela fluidez. O vídeo Performed Painting 1 – Infiltração mostra o todo o processo de infiltração que utilizo para a tela Fluidos e Fixos – Infiltração 26. Com um jato de água e ar comprimido, vou passando a tinta que se encontrava no verso da tela. O jato empurra a cor para o outro lado da superfície. Geralmente aplico a tinta dos dois lados até encontrar o lado “certo”. Com esse processo vou buscando matizes de cor em relações entre a origem e o desaparecimento da cor em si e como matéria.

E essa relação entre as cores tem papel fundamental no seu trabalho.
Sim. Em uma mesma tela posso usar 15 ou até mais tons de uma cor sem que isso signifique que estou trabalhando com monocromo. Uma pintura não é apenas toda azul, porque existem ali muitos tons de azul e a relação entre eles. Quando faço isso, estou tratando exatamente do estado provisório da matéria, que é provisório porque a cor está presente e não está. É visível e também quase não é. Então, em uma mesma tela eu tenho campos de luz, espaços de ausência total de pigmento e até áreas extremamente saturadas em cor, mas sem volume.

Nesse processo, em alguns momentos cores e traços têm uma presença quase gráfica, afirmativa, enquanto em outros, são como vestígios, rastros, revestindo o trabalho de dúvidas e desistências.
Tem momentos em que tudo desaparece. Penso “Acabei com o trabalho. Ele não existe mais”. Some tudo e aí recomeço e vão surgindo e ressurgindo coisas ali. Elas vão se estabilizando. Quando estou fazendo o trabalho tenho a sensação do presente, do agora. Arnaldo Antunes que tem uma música que fala “Agora, já passou” e nesse agora que passou fica um vestígio.

No filme Performed Painting 1 – Vestígio – Guignard o vestígio é personagem principal.
Filmamos uma história que aconteceu comigo quando tinha 16 anos. Saí com amigos para soltar pipa na estrada, perto de casa. A minha pipa vermelha entrou em uma nuvem que estava baixa, pensei que a havia perdido, mas ela voltou molhada para minha mão, impregnando de cor tudo o que tocava. Acredito que foi naquele momento que a minha pintura começou, porque foi ali que pude perceber a matéria fluida das coisas. Trata-se de uma pintura/filme. E esse trabalho é uma homenagem ao Guignard, que tinha um aspecto líquido, lavado em seus trabalhos. Era como se ele quisesse achar seu espaço lavando a cor europeia.

Em que medida o tempo te interessa?
Interessa-me o tempo da cor, o tempo de observação, o tempo como matéria, como fundamento da pintura. Meus trabalhos não são feitos de uma só vez. Mesmo que em alguns casos possam ser capturados com um olhar, em outras situações é necessário um olhar demorado para absorvê-lo. O Amílcar de Castro costumava ir ao meu ateliê, levando outras pessoas. Ele queria que elas me vissem pintando. Costumava dizer que eu parecia um samurai com a espada na mão quando me via usando o aparelho que faz as infiltrações em minhas telas. Sempre voltava queria ver o trabalho pronto e uma vez disse: “Niura, seu trabalho é uma porrada”. Ele tinha razão. Existe a construção deliberada de uma pressão cromática que é muito importante. Nessa exposição, mais uma vez, crio uma instalação ao propor uma pressão cromática e cada pintura é uma peça que compõe a instalação e que também existe separadamente.

E é uma pressão que se estrutura, um processo que vai adensando ou esvaziando os campos, mas eles continuam lá e vão se acumulando.
A gente conversava muito sobre o quanto meu trabalho não é apenas um gesto. Não é gestual, nesse sentido, são campos construídos, que se estabelecem em relações entre ausência e presença.

O trabalho contém a memória desses esforços: os campos que foram encobertos e os que se mantêm visíveis. Ele guarda o caminho percorrido na tentativa de chegar a algum lugar.
A sensação que tenho é que aquilo que está aparecendo ali já existia e o que faço é trazer aquilo para o campo do visível. É como se eu tivesse ampliando o estar. Vem de novo essa ideia do presente, do agora. Às vezes me sinto whereless, quer dizer, sem onde. É justamente a hora em que vou para o ateliê pintar. É como se eu estivesse criando o meu onde.

Fernanda Lopes
Outubro de 2009